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Tanajuras E Seus Significados



O homem é um onívoro que estabelece regras alimentares, classificando o que é comestível ou não, transformando alimento em comida. Assim é que o que se come em determinada cultura não se come em outra. E assim é que trago aqui esta história...
Trafegando por rodovias que cruzam os municípios de São Bendito, Ubajara e Tianguá, região cearense chamada de Serra Grande ou Ibiapaba, deparei-me com algo inusitado. Mulheres, homens, jovens e crianças correndo no mato, de um lado para o outro, olhando ora para a terra, ora para os ares. Meus olhos seguiam o mesmo movimento, tentando entender o que estava acontecendo. Um brincadeira? Uma disputa? Uma coleta? O que seria?

Nas mãos, garrafas pet, baldes e latas, cujo conteúdo escuro eu não conseguia distinguir bem. Fiquei assistindo, por um bom tempo, aquilo que parecia ser uma atividade divertida para quem a praticava... enquanto pensava na estranha interação entre homem e natureza que observava. A convivência, o movimento, gritos e risadas, cheias de códigos entendidos por quem participava e não entendidos pelos de fora.

Ao aproximar-me, percebi que eram formigas voadoras, tanajuras negras e gordas. Indaguei para que serviam. Responderam que era pra comer e pra vender. Quando criança, tinha visto tanajuras no sertão, mas não tinha conhecimento de que podiam ser comidas.

Entre admirada e curiosa, perguntei sobre o sabor, pois antes de desafiar meus sentidos queria ouvir a apreciação daquelas pessoas e, quem sabe, espantar o medo do novo...

É gostoso... é bom... é uma delícia... tem muita gente que gosta... Parece milho de pipoca torrada... Parece amendoim torrado!!!
Estava ali o que eu queria ouvir: uma semelhança, uma identificação com algum alimento do meu repertório. Na verdade, queria entender o paladar pela leitura de meu cotidiano e, dessa forma, experimentar ou rejeitar.

O episódio ficou em minha memória e sempre que voltei à Serra Grande, nos períodos de dezembro a fevereiro, tive oportunidade de rever aquele ritual.

Formiga é comida?

Içá ou tanajura é a formiga fêmea da saúva - também chamada, no Ceará, de formiga de asa ou formiga de roça - no tempo da reprodução da espécie. Em tupi-guarani, significa "formiga que se come".

Ainda que a entomofagia (prática de alimentar-se com insetos) seja vista por muitos como "costume de gente primitiva", em diferentes partes do País esse alimento é considerado uma verdadeira iguaria.

Tendo origem em hábitos indígenas, o costume foi assimilado e hoje as formigas são consumidas em farofas ou ao natural - alimento cru, sem misturas -, torradas com água e sal, como aperitivo, acompanhando bebidas fermentadas ou destiladas. Há, ainda, relatos de outros modos de preparar o alimento, como é o caso do prato composto por abdomens ovados de tanajuras com arroz e feijão, sendo aí a formiga utilizada como substituto da carne.

A parte comestível é o abdômen da formiga, popularmente, a bunda de tanajura. A preparação mais apreciada e relatada ensina que devem ser lavadas e fritas em sua própria gordura, manteiga, banha ou óleo, para ficarem crocantes, adicionando-se, então, pimenta do reino e sal.

Formiga, comida e identidade

É conhecida a metáfora entre essas formigas e as mulheres de ancas largas: bunda de tanajura. No cerrado Goiano, as formigas são capturadas antes do acasalamento, pois considera-se que a tanajura virgem levanta a moral. No Ceará, as tanajuras têm sido vendidas como afrodisíaco. Há, assim, uma relação da tanajura com o corpo idealizado da mulher - cintura fina e ancas largas -, além do simbólico de comê-las antes do acasalamento e, portanto, em estado de virgindade.

As formigas revoam para acasalamento. Nas primeiras chuvas, as novas rainhas inundam os céus da Serra Grande: cai, cai tanajura, que é tempo de gordura. Para fazê-las baixar o vôo, a meninada - mas também os adultos - cantam a parlenda. Cai, cai, tanajura que teu pai tá na gordura.

Além do consumo local, o produto é "de exportação":

Latas e latas de tanajuras fritas correm o Brasil inteiro, para gozo e regozijo das amizades dos conterrâneos emigrados. Já comi, já ganhei de presente, presente fino, presentão!
Há uma identificação dos serranos da Ibiapaba com o uso das tanajuras como comida, constituindo-se em tradição que os distingue entre os cearenses. Como alimento, é altamente valorizado na região, sendo recompensa e prêmio em apostas:

Pago um queijo de coalho, uma lata de tanajuras torradas na banha de porco, e meio grajau de rapaduras de Serra Grande!
Sua captura é um ritual que mistura diversão, subsistência e prazer. Elas saem dos formigueiros e sobrevoam a cidade. Em bandos, as pessoas munem-se de seus instrumentos: galhos e gravetos, vasilhas com tampa... para que não escapem. Como têm ferrões, é valorizada a habilidade de retirá-los, para evitar as picadas.

O produto da captura é para consumo próprio e para venda em bodegas e bares, onde são usadas como tira-gosto. O que há de mais moderno é que podem ser congeladas para utilização em festividades como o carnaval, acompanhando cervejas ou cachaças da Serra. Com as novas técnicas de conservação, as tanajuras passam a ser mantidas para além de sua sazonalidade. Em casa, são compartilhadas por todos os membros da família. Na rua, são partilhadas em mesas de bares e restaurantes, entre amigos.

Além de valorizada culturalmente e de sua rica composição nutricional - enquanto que a carne bovina possui 20% de proteínas, as formigas contêm aproximadamente 44%, sendo sua composição ainda rica em sódio, potássio, ferro, cálcio e ácidos graxos - as tanajuras têm outros empregos além da comida: são também usadas como mezinhas. No sertão nordestino, mezinha é o nome que se dá ao remédio caseiro tido como certeiro.

Não existe melhor cura

P'ra doenças de garganta

É bunda de tanajura

E injeção não adianta

Há uma crença popular que diz que formiga faz bem pra vista. Assim é que é costume comer tanajura no 13 de dezembro, dia de Santa Luzia: para o bem da visão.

E assim é que, ainda que diante de todas as possibilidades alimentares dos dias atuais, se atualiza, na Serra Grande, a prática de perseguir as tanajuras de um lado a outro, no tempo de revoada. Afinal, quem envia uma lata de tanajuras para um parente ou amigo distante, sabe que ao abrir a embalagem a terra natal será lembrada, com os aromas e sabores que só ali existem. Naquele instante, quem manda e quem recebe formam uma comunidade, pela comida. Comida memória, comida lembranças, comida identidade.

* Maria Lúcia Barreto Sá Maria Lúcia Barreto Sá Este endereço de e-mail está sendo protegido de spam, você precisa de Javascript habilitado para vê-lo é uma nutricionista que anda pelas estradas da vida observando pessoas, comidas... e formigas.

http://www.malaguetacom.slog.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1199&sid=22